Pick my Brain #001
Sabe qual é um dos maiores desafios para mim? Quando recebo um pedido para enviar a minha biografia. Já acho mega desafiador quando vem aquela pergunta informal: “me conte um pouco sobre você?”. No geral mil e uma coisas passam pela minha mente antes de qualquer esboço de resposta comece a sair pela minha boca: o que será que essa pessoa quer saber, de onde será que eu começo, será que consigo fazer isso em menos de 10 minutos, o que será que é relevante, será que eu falo dos meus hobbies ou só da minha vida profissional? É um processo de auto análise infindável e sempre termino com a sensação de que poderia ter respondido de uma forma melhor.
Se já é desafiador falar assim sobre você em uma conversa informal, acho ainda mais complicado fazê-lo no papel (ou melhor no teclado). Nos dias atuais em que cada caractere que você escreve fica salvo na rede para a posteridade, falar de si por escrito carrega um peso ainda maior. Não é uma tarefa simples da aula de redação que ficará esquecida tão logo você receba uma nota. A pressão é real: qualquer pessoa que use o serviço de busca da moda (hoje é o Google, mas sabe se lá qual será quando esse texto for lido daqui há 20 anos) achará a sua bio em algum momento. Aliás tem tantas idéias sobre nós que as pessoas inferem sem nem nos conhecer, a tarefa de se auto definir então é ainda mais crucial: essa é a sua chance de se auto-rotular.
Há uns meses recebi esse pedido novamente e como não havia sido a primeira vez, fui atrás da última que mandei. Depois de uma frustrante busca sem resultados no poço sem fundo que é a minha caixa de emails, percebi que aquela seria a minha oportunidade para começar de novo. Escrevi o parágrafo sobre mim novamente e salvei nas notas do meu celular na esperança de que nunca mais teria que escrever tudo do zero de novo.
Até que resolvi criar esse newsletter. Lá estava o temido campo de texto para você inserir algo sobre você. Um sorriso maroto de quem já venceu essa fase logo dominou a minha face. Abri as notas do meu celular, copiei a minha bio super editada, voltei para a página do Substack e colei. Tão logo eu cliquei no “salvar" o meu sorriso maroto se transformou em um profundo ressentimento: “Erro 400: por favor insira uma bio mais curta (250 caracteres máx.)”. Aquela mensagem de erro anunciava que o meu parágrafo perfeito e conciso, sucinto e resumido, tão bem escrito, aparentemente mais parecia o enredo do filme “Forrest Gump” do que uma bio.
“Hello. My name is Forrest. Forrest Gump. Do you want a chocolate? I could eat a million and a half of these. My Mama always said life was like a box of chocolates. (…)”
E lá fiquei eu em estado de micro pânico, bem catatônica mesmo, olhando para o campo e para todos aqueles caracteres que estavam mais condenados do que a minha mala de mão que não encaixava no suporte de metal daquele pôster da fila do check-in do aeroporto. (Vocês já viram a cara de pânico das pessoas quando a atendente do check-in pede para encaixar a mala de mão ali?). Como poderia editar as minhas múltiplas e polidas facetas em algumas poucas que ainda tivessem a minha essência?!? Logo cortei a minha idade, afinal os sábios já diziam que “não são os anos da sua vida que contam, e sim a vida nos seus anos”. Nesse mesmo espírito cortei o meu tempo de carreira (afinal isso aqui não é o formulário da minha aposentadoria aonde preciso comprovar os anos de serviço). De edição em edição fui emagrecendo a minha bio de todos os quilos desnesserários acumulados ao longo desses 30 e muitos anos.
Esse exercício ingrato de edição se provou uma das sessões de auto análise mais profundas que já fiz. Aliás descobri tanto sobre mim e sobre o que é importante para mim que recomendo demais. Fica a dica de que o “WORD” conta os caracteres. Eu meu sinto mais preparada para falar de mim em poucas palavras. Da próxima vez que me encontrar na rua, pode me perguntar e tirar a prova.
Eu comecei esse texto porque tive a idéia de que o primeiro newsletter pedia uma apresentação. São mais de dez anos de presença digital em plataformas variadas. Talvez você tenha estudado comigo no colégio e só se lembre da Camila de 20 anos atrás. Talvez você tenha me conhecido na época do blog “I am Leaving Today” que coloquei no ar em 2008 para dividir as minhas experiências em Nova Iorque. Ou será que me conhece da fase seguinte quando me aventurei no Snapchat?! Pode ser que não tenha idéia de quem eu seja ou que pense que eu sou só mais uma aspirante a “influencer”. Então antes que você construa a sua idéia do que os meus 250 caracteres deveriam ser, aqui vai. Prazer, Eu sou a Camila Cilento:
Paulistana na teoria, Nova Iorquina na essência. Mãe, formadora de opinião, profissional dinâmica e multifacetada. Formada pela FGV, trabalha no mercado financeiro, investidora-anjo da Care Natural Beauty e tem um canal de lifestyle no IG.
E assim, depois de mais de 10 anos que subi o primeiro post no meu adormecido blog, sentada numa mesa de banco qualquer, cá estou eu voltando às origens.



Cami, estou aos 36 anos em minha segunda graduação. Quando mudei de carreira e me vi voltando a ser "só" estudante, me percebi tendo um enorme desconforto em minhas apresentações. Antes, era fácil me definir pela minha profissão - tão nova, tinha conseguido crescer mais rápido do que meus pares - era uma ótima forma de me colocar. Foram exercícios longos, profundos e tema de muitas sessões de terapia: afinal, quem é a Fernanda? Como ela se define? O que é importante dizer sobre mim e para quem?
Cada dia mais difícil fazermos nossa biografia em tão curtos espaços... justo num momento em que somos tantas.